O pai, que resmungava à entrada da cabana, entrou assim que o bebê parou de chorar, pegou um instrumento afiado de pedra das mãos da parteira e cortou o cordão de carne que ligava o bebê à mãe. Pegou o garoto nos braços, se levantou e saiu. Foi em direção ao lago olhando para o bebê, seu primogênito. Caminhou até que a água gelada alcançasse sua cintura e molhou o garoto para tirar o sangue. Quando acabou, ele o levantou para olhar melhor o rosto da criança.
- Teu nome é Ri.
...
15 anos depois, o pequeno Ri havia se tornado um adulto, nos costumes de sua aldeia, e era o mais alto entre eles. Essa singular característica fez ele ser respeitado e poder escolher com qual mulher iria "casar". Isso era realmente importante para ele neste momento, pois iria escolher sua mulher em alguns minutos.
Ele já sabia qual escolheria. Uruba, a filha do chefe. Ela também tinha uma característica singular, a primeira pessoa de sua tribo - e, ele pensava, do Mundo - com a vogal fonética "a". Uma ideia meio revolucionária do chefe, que foi muito criticado, pois os únicos nomes com aquela letra eram os dos deuses criadores. Apesar disso, em pouco tempo todos estavam gostando da ideia e até mudando seus nomes. Foi a própria Uruba quem começou a chamar Ri de Raí.
Raí estava sentado dentro da cabana de sua família quando o chefe da tribo entrou.
- Raí, levante-se. Hoje é seu grande dia. Espero que não esteja nervoso.
- Não, senhor. Estou bem.
- Lá fora estão 5 mulheres com idade para se casar. Se lembra como funciona a cerimônia?
- Sim. Já vi uma vez, quando Daichin matou a grande fera e pode escolher, também, com quem se casar.
- Então me acompanhe.
Já era noite e o céu estava cheio de estrelas. Num grande espaço no meio das cabanas se erguia uma grande fogueira e ao redor dela se reuniam várias pessoas dançando e cantando. Quando perceberam que o chefe e Raí se aproximavam a música parou e todos ficaram em silêncio.
- Hoje, mais um homem e uma mulher de nossa aldeia irão se casar - gritava o chefe para que todos ouvissem. - Raí, por ser o mais alto entre nós, poderá escolher sua mulher.
As pessoas gritaram em concordância.
O chefe da tribo colocou Raí de frente ao tronco de árvore onde as pretendentes estavam sentadas. Uruba deu um sorriso e Raí retribuiu.
- Raí, você conhece essas mulheres? Sabe seus nomes? - continuou o chefe gritando.
- Sim, senhor. - gritou Raí, também.
- Já fez a sua escolha?
- Sim, senhor. Eu quero me casar com Uruba. - Ao ouvir seu nome, Uruba caminhou sorridente até Raí. Não era estranho que ela estivesse assim, Raí já tinha contado à ela que a escolheria. Além dos banhos demorados que os dois davam no lago.
- Então que comece o casamento. - O chefe fez sinal para que a música voltasse a tocar.
O chefe entregou a Raí uma cuia de madeira com um líquido alucinógeno verde. Ao som de tambores e gritos, o casal bebeu e consagrou seu casamento.
Meia hora depois, Raí e Uruba já estavam tontos pela bebida e decidiram ir pra sua nova cabana. Foram dar boa noite aos seus pais e se retiraram da festa, cambaleando. A cabana deles ficava afastada da praça. Longe da música, Raí conseguiu dizer o que estava em seu pensamento desde que começou a tontura.
- Eu sei que é costume da nossa aldeia fazer... - ele parou um pouco para olhá-la. - sexo logo depois do casamento, mas acho que não vou conseguir. Estou muito tonto. - dizia Raí se sustentando em Uruba.
- Tudo bem. Eu também não estou me sentindo bem. - disse Uruba ao chegar à entrada da cabana.
Os dois entraram e rapidamente se deitaram no tapete feito de pelos de cabra. Raí ficou olhando para Uruba sem dizer nada até adormecer. Pensava em como seria a vida com a ela, os filhos, talvez aumentar a cabana.
Raí se acordou assustado com os gritos de Uruba.
- Raí, acorda. Acorda!
- O que houve? - disse Raí fazendo caretas pela dor de cabeça.
- Um mamute invadiu a aldeia! - disse Uruba ajudando Raí a se levantar e entregando a ele a lança.
- Um mamute? É impossível! Não vemos um mamute desde que Daichin tentou matar um sozinho lá no vale. - Raí esfregava os olhos pensando que os gritos que ouvia fora da cabana eram da festa.
- Estou te dizendo, tem um...
Um bramido alto de uma fera vinha da praça. Raí correu para fora da cabana e avistou a enorme cabeça peluda de um mamute preto brilhando pelas chamas da fogueira. Ficou estacado por alguns segundos até começar a correr e gritar em direção à praça.
- Mamute! Mamute!
Uruba vinha logo atrás. Quando chegaram à praça viram os guerreiros gritando com suas lanças em mãos, tentando afugentar o mamute. Algumas lanças foram jogadas na barriga do animal e ficaram presas. O animal continuava bramindo e balançando a tromba e as presas na direção dos guerreiros. O chefe correu ao encontro deles quando os avistou.
- Filha, você está bem?
- Sim, estou. O que foi que o atraiu para a aldeia?
- Provavelmente os tambores ou o fogo. Agora não sabemos como fazer para que ele vá embora.
- Por que não o matamos? - disse Raí, mirando sua lança na cabeça do bicho.
- Desde meu avô que essa aldeia já não mata mamutes, não sabemos como fazer. O próprio Daichin morreu tentando. - disse o chefe, segurando o braço de Raí.
- Deveríamos usar tochas para afugentá-lo, funciona com os tigres. - disse Uruba.
Os dois homens se entreolharam.
- Pode ser. - disse Raí.
- É, talvez funcione. - disse o chefe.
Mas Uruba já havia corrido para a fogueira e pegara um pedaço de madeira em chamas. Correu para perto do mamute e balançou a tocha na direção de seus olhos.
- Uruba! Não! - disse Raí.
Mas Uruba não escutou. Os bramidos do mamute agora eram de medo. Outros guerreiros pegaram tochas também. Apesar disso, o enorme animal preto não fugiu. Se virou de costas para os guerreiros com as tochas e deu um coice, que acertou Uruba e jogou-a para longe. Raí e o chefe da tribo correram para Uruba que estava imóvel. Seu rosto estava desfigurado, ela não se mexia nem respirava. Estava morta.
O chefe da tribo começou a chorar sobre o corpo da filha. Mas Raí se levantou e olhou para o mamute. Ele estava decidido em matar o animal. Segurou firme sua lança e, mesmo de longe, fez mira para acertar a cabeça da fera. Jogou a lança no ar e a acertou no olho direito do animal, que explodiu em gemidos. Começou a balançar a cabeça para fazer a lança sair de seu olho.
Raí achou que aquilo seria suficiente, mas não foi. Agora o mamute estava correndo descontrolado pela praça, quebrando algumas cabanas. Raí só pensava em vingar Uruba nesse momento e tinha que fazer de qualquer jeito. Correu para os guerreiros e tomou a lança de um deles. Depois foi na direção do mamute e se pendurou na pelagem do animal. Apesar do mamute se sacudir de dor, Raí conseguiu montar na sua cabeça. Achou a nuca do bicho e enfiou a lança. O mamute soltou mais um gemido forte, cambaleou um pouco e caiu morto. Os guerreiros gritaram o nome de Raí, felizes, mas Raí não estava sorrindo.
Ele já sabia qual escolheria. Uruba, a filha do chefe. Ela também tinha uma característica singular, a primeira pessoa de sua tribo - e, ele pensava, do Mundo - com a vogal fonética "a". Uma ideia meio revolucionária do chefe, que foi muito criticado, pois os únicos nomes com aquela letra eram os dos deuses criadores. Apesar disso, em pouco tempo todos estavam gostando da ideia e até mudando seus nomes. Foi a própria Uruba quem começou a chamar Ri de Raí.
Raí estava sentado dentro da cabana de sua família quando o chefe da tribo entrou.
- Raí, levante-se. Hoje é seu grande dia. Espero que não esteja nervoso.
- Não, senhor. Estou bem.
- Lá fora estão 5 mulheres com idade para se casar. Se lembra como funciona a cerimônia?
- Sim. Já vi uma vez, quando Daichin matou a grande fera e pode escolher, também, com quem se casar.
- Então me acompanhe.
Já era noite e o céu estava cheio de estrelas. Num grande espaço no meio das cabanas se erguia uma grande fogueira e ao redor dela se reuniam várias pessoas dançando e cantando. Quando perceberam que o chefe e Raí se aproximavam a música parou e todos ficaram em silêncio.
- Hoje, mais um homem e uma mulher de nossa aldeia irão se casar - gritava o chefe para que todos ouvissem. - Raí, por ser o mais alto entre nós, poderá escolher sua mulher.
As pessoas gritaram em concordância.
O chefe da tribo colocou Raí de frente ao tronco de árvore onde as pretendentes estavam sentadas. Uruba deu um sorriso e Raí retribuiu.
- Raí, você conhece essas mulheres? Sabe seus nomes? - continuou o chefe gritando.
- Sim, senhor. - gritou Raí, também.
- Já fez a sua escolha?
- Sim, senhor. Eu quero me casar com Uruba. - Ao ouvir seu nome, Uruba caminhou sorridente até Raí. Não era estranho que ela estivesse assim, Raí já tinha contado à ela que a escolheria. Além dos banhos demorados que os dois davam no lago.
- Então que comece o casamento. - O chefe fez sinal para que a música voltasse a tocar.
O chefe entregou a Raí uma cuia de madeira com um líquido alucinógeno verde. Ao som de tambores e gritos, o casal bebeu e consagrou seu casamento.
Meia hora depois, Raí e Uruba já estavam tontos pela bebida e decidiram ir pra sua nova cabana. Foram dar boa noite aos seus pais e se retiraram da festa, cambaleando. A cabana deles ficava afastada da praça. Longe da música, Raí conseguiu dizer o que estava em seu pensamento desde que começou a tontura.
- Eu sei que é costume da nossa aldeia fazer... - ele parou um pouco para olhá-la. - sexo logo depois do casamento, mas acho que não vou conseguir. Estou muito tonto. - dizia Raí se sustentando em Uruba.
- Tudo bem. Eu também não estou me sentindo bem. - disse Uruba ao chegar à entrada da cabana.
Os dois entraram e rapidamente se deitaram no tapete feito de pelos de cabra. Raí ficou olhando para Uruba sem dizer nada até adormecer. Pensava em como seria a vida com a ela, os filhos, talvez aumentar a cabana.
...
- Raí, acorda. Acorda!
- O que houve? - disse Raí fazendo caretas pela dor de cabeça.
- Um mamute invadiu a aldeia! - disse Uruba ajudando Raí a se levantar e entregando a ele a lança.
- Um mamute? É impossível! Não vemos um mamute desde que Daichin tentou matar um sozinho lá no vale. - Raí esfregava os olhos pensando que os gritos que ouvia fora da cabana eram da festa.
- Estou te dizendo, tem um...
Um bramido alto de uma fera vinha da praça. Raí correu para fora da cabana e avistou a enorme cabeça peluda de um mamute preto brilhando pelas chamas da fogueira. Ficou estacado por alguns segundos até começar a correr e gritar em direção à praça.
- Mamute! Mamute!
Uruba vinha logo atrás. Quando chegaram à praça viram os guerreiros gritando com suas lanças em mãos, tentando afugentar o mamute. Algumas lanças foram jogadas na barriga do animal e ficaram presas. O animal continuava bramindo e balançando a tromba e as presas na direção dos guerreiros. O chefe correu ao encontro deles quando os avistou.
- Filha, você está bem?
- Sim, estou. O que foi que o atraiu para a aldeia?
- Provavelmente os tambores ou o fogo. Agora não sabemos como fazer para que ele vá embora.
- Por que não o matamos? - disse Raí, mirando sua lança na cabeça do bicho.
- Desde meu avô que essa aldeia já não mata mamutes, não sabemos como fazer. O próprio Daichin morreu tentando. - disse o chefe, segurando o braço de Raí.
- Deveríamos usar tochas para afugentá-lo, funciona com os tigres. - disse Uruba.
Os dois homens se entreolharam.
- Pode ser. - disse Raí.
- É, talvez funcione. - disse o chefe.
Mas Uruba já havia corrido para a fogueira e pegara um pedaço de madeira em chamas. Correu para perto do mamute e balançou a tocha na direção de seus olhos.
- Uruba! Não! - disse Raí.
Mas Uruba não escutou. Os bramidos do mamute agora eram de medo. Outros guerreiros pegaram tochas também. Apesar disso, o enorme animal preto não fugiu. Se virou de costas para os guerreiros com as tochas e deu um coice, que acertou Uruba e jogou-a para longe. Raí e o chefe da tribo correram para Uruba que estava imóvel. Seu rosto estava desfigurado, ela não se mexia nem respirava. Estava morta.
O chefe da tribo começou a chorar sobre o corpo da filha. Mas Raí se levantou e olhou para o mamute. Ele estava decidido em matar o animal. Segurou firme sua lança e, mesmo de longe, fez mira para acertar a cabeça da fera. Jogou a lança no ar e a acertou no olho direito do animal, que explodiu em gemidos. Começou a balançar a cabeça para fazer a lança sair de seu olho.
Raí achou que aquilo seria suficiente, mas não foi. Agora o mamute estava correndo descontrolado pela praça, quebrando algumas cabanas. Raí só pensava em vingar Uruba nesse momento e tinha que fazer de qualquer jeito. Correu para os guerreiros e tomou a lança de um deles. Depois foi na direção do mamute e se pendurou na pelagem do animal. Apesar do mamute se sacudir de dor, Raí conseguiu montar na sua cabeça. Achou a nuca do bicho e enfiou a lança. O mamute soltou mais um gemido forte, cambaleou um pouco e caiu morto. Os guerreiros gritaram o nome de Raí, felizes, mas Raí não estava sorrindo.
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| "A morte de Uruba". Foto de Rafael Ferreira. |
Uruba foi enterrada ao amanhecer do dia seguinte, junto com os corpos de outros familiares dela, mas Raí não foi ao enterro. Ele estava agora dentro de uma caverna próxima da aldeia, onde seus ancestrais fizeram desenhos nas paredes. Estava desenhando a morte de Uruba com o sangue do mamute para quem visse no futuro soubesse daquela história.
Ao lado dele estava uma bolsa feita de pele de carneiro com mantimentos e roupas de frio. Ele havia decidido ir embora da aldeia e saiu de madrugada para que ninguém o visse. Quando terminou o desenho, ainda ficou alguns minutos olhando para ele e pensando em Uruba. Depois saiu da caverna e olhou para a aldeia perto do lago, lembrando de seus pais e amigos.
- Adeus.
Raí começou a caminhar para o Oeste até achar povos bem diferentes do dele, mas essa já é outra história.

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